A Cozinheira Tradicional Asteca

A cozinheira tradicional asteca era responsável por transformar o milho nixtamalizado, preparar tortillas, molhos, tamales e bebidas, preservando conhecimentos transmitidos entre gerações e fundamentais para a cultura alimentar mexica.

Historia geral das coisas de Nova Espanha é uma obra enciclopédica sobre o povo e a cultura do México central compilada pelo Frei Bernardino de Sahagún (1499-1590), um missionário franciscano que chegou ao México em 1529, oito anos depois de Hernán Cortés terminar a Conquista espanhola.

O manuscrito, comumente chamado de Códice Florentino, consiste em 12 livros dedicados a diferentes assuntos. O Livro X trata da sociedade asteca e cobre tópicos como as virtudes e vícios das pessoas, comida e bebida, partes do corpo humano, doenças e remédios.

Perfil 2BCozinheira 2BAsteca 2B00A mulher que sabe cozinhar bem: o trabalho dela é entender o seguinte, é aconselhável saber: fazer boa comida, fazer tortillas, amassar bem, saber fazer fermento e por tudo isso é diligente e dura trabalhadora, e sabe fazer tortilhas planas, e redondas, e bem feitas: e pelo contrário faze-as compridas: ou faze-as finas: ou faze-as com dobras, ou faze-as enroladas com pimenta. 
E saber fazer massa de feijão cozida na massa de tamales; e sabe fazer tamales de carne, como empanadinhas e sabe fazer pãezinhos redondos, e saber fazer bolos largos, e saber cozinhar alimentos, e sabe fazer molhos com a maior parte das sementes. Quem é boa neste trabalho, sabe saborear guisados, sejam eles bons ou não, e tem habilidade e experiência em todo o gênero de guisados, entende e é limpa em seu ofício, e faz guisados lindos e saborosos.
 
Screenshot 20210406 130236

Em contrapartida também menciona os vícios… Aquele que não é tal; Ela não entende bem o seu trabalho, é preguiçosa e chata, porque cozinha mal, suja, e porca, comilona, glutona, gananciosa, e cozinha mal as tortilhas e os guisados que ela faz são queimados ou salgados ou quentes ao mesmo tempo , e assim por diante. Em tudo ela é rude e grosseira.

Da Cozinheira Asteca às Cozinhas de Hoje

Marco Meléndez │ A Cozinheira Asteca

Quinhentos anos separam o relato de Sahagún do nosso tempo, mas vale parar um instante na régua que ele usa para medir uma “boa cozinheira”: saber fazer tortillas no ponto certo, dominar o tempero de um guisado, entender a massa de tamales de cabeça.

No México do século XVI, esse domínio não era um talento opcional — era, junto com a diligência e a limpeza, a própria definição do que fazia uma mulher valer dentro de casa.

Hoje essa régua se deslocou. Para boa parte das mulheres — e também dos homens — cozinhar deixou de ser um saber automático, transmitido por obrigação de mãe para filha desde criança, e passou a ser uma escolha: algo que se aprende quando se quer, não porque a vida cobra. A geladeira, o aplicativo de delivery e a tortilla de pacote resolveram o problema prático de comer todos os dias, e levaram junto boa parte da urgência social de saber cozinhar bem.

Não chamaria isso de decadência — é deslocamento. O que antes era obrigação herdada hoje é resgate deliberado. Quando alguém decide, por conta própria, aprender a nixtamalizar milho ou a abrir uma tortilla à mão, está reencontrando, por escolha e não por exigência, o mesmo saber que a cozinheira asteca de Sahagún carregava como expectativa de nascença — só que agora com outro peso: o de não deixar esse conhecimento se perder.

Basta olhar para a cozinha de ponta de hoje para confirmar isso.

  • Enrique Olvera, da Pujol, hoje com duas estrelas Michelin e apontado como o chef mexicano mais influente da atualidade, passou a infância na padaria da avó na Cidade do México, aprendendo a amassar massa de milho e a fazer tortillas à mão — e até hoje cita o caderno de receitas manuscrito da própria mãe como a referência culinária mais importante de sua carreira, mais do que qualquer escola de gastronomia.
  • Do outro lado do Atlântico, Massimo Bottura, da Osteria Francescana, três estrelas Michelin e consagrado melhor restaurante do mundo, conta a mesma origem: escondido debaixo da mesa da cozinha, aprendeu a dobrar tortellini vendo a própria avó estender a massa, muito antes de pisar numa cozinha profissional. A alta gastronomia que hoje se estuda em escola e se mede em estrela nasceu, quase sempre, de um saber doméstico repetido sem pressa, geração a geração, bem antes de virar currículo.
 

É esse mesmo fio que liga a cozinheira do Códice Florentino à avó que ensinou um futuro chef a abrir a massa com a própria mão: o saber que hoje é exceção, e não regra, continua sendo o alicerce silencioso de tudo o que se chama de grande cozinha.

Quer aprender as técnicas ancestrais da cozinha mexicana?

Descubra 10 receitas mexicanas para iniciantes